Da arte de escrever bem
Pois bem, os primeiros emails chegaram a respeito deste meu blog, não com dúvidas, mas apenas me parabenizando pela criação do mesmo. Um amigo meu até chegou a comentar que eu escrevo bem.
Agradeci pelo lisonjeiro comentário, à la "nem tanto, mestre, nem tanto", e ajeitei os cabelos acima da orelha qual o ator Nizo Neto na saudosa Escolinha. Mas sempre me sinto desconfortável quando isso acontece, porque eu realmente não acho que escrevo tão bem assim. Não, não é excesso de modéstia.
Mas, o que é escrever bem? Seria falar difícil? Escrever sem erros? Psicografar textos de grandes escritores do passado? Ou talvez o dom divino de escrever um romance best-seller de trocentas páginas?
Enfim, há um punhado de razões para eu hoje não escrever tão mal. Mas dentre as mais importantes, destaco um truque muito usado no futebol: o drible. E olha que nem futebol eu jogo.
Com uma língua tão linda e tão rica quanto o português (do qual me orgulho muitíssimo de ser falante nativo), eu me recuso a travar no meio de um texto só porque esqueci como se escreve esta ou aquela palavra, ou qual era a regência daquele verbo. Ou melhor: só por ter esquecido. Explico abaixo.
O título desta postagem poderia ter sido "Como e por quê escrevo bem", mas além de arrogante, um título desses me obrigaria a lembrar das regras dos porquês juntos ou separados, com ou sem acento. OK, eu lembro do professor Sérgio Monteiro em 1998 explicando que "por que" sem acento era o mesmo que "por que razão", e "porquê" era substantivo etc. Mas evitar o uso de porquês é uma tarefa que desenvolvo com gosto a cada linha que escrevo. Penso: toma essa, seu porquê duma figa! Fica aí no fundo da gramática que é o seu lugar! Cada porquê evitado é um serviço que presto a mim mesmo; é um gol imaginário que faço após chutar a bola na trave e fazê-la ricochetear em direção ao fundo da rede.
Vejamos alguns exemplos de problemas contornáveis:
Entre mim e você ou entre eu e você? A primeira opção é a correta, mas na minha humilde opinião, soa mal. Solução? Entre nós! :-)
O alface ou a alface? Solução: lave bem a alface para retirar qualquer resquício de gênero. Exemplos:
Comer alface é muito bom. (Viram? Arranjei a frase de um jeito que não precisei definir o gênero do substantivo.)
Os benefícios da ingestão de alface são numerosos. (Falei bonito, né? E a danada da alface continuou sem gênero!)
Haja vista ou haja visto? (Ou aja visto/a, ou qualquer outra variação bizarra)
É uma expressão a meu ver completamente desnecessária, tendo em vista as várias opções de substituição, ou se preferir, devido às várias opções, ou ainda por causa das várias opções... a língua tá aí, só escolher.
A cerca de / Acerca de / Cerca de / Há cerca de
Já posso até ouvir alunos pré-lamentando seu fracasso: "Ai meu Deus, professor, assim eu vou tirar zero na redação!!". Como disse Jack o Estripador, vamos por partes:
A cerca de? Cerca de? Nada disso. Prefiro aproximadamente, ou talvez por volta de.
Acerca de = a respeito de;
Há cerca de = vide resposta acima.
Sempre gostei de ler rótulo de embalagem. Lembro de um frasco de adoçante líquido que, ao instruir o consumidor sobre quantas gotas adicionar ao cafezinho, dizia "Cada gota de Adoçante XXX equivale ao dulçor de 3 colheres de chá de açúcar". Dulçor?! Que raios é isso?
Uns tempos depois (e possivelmente após reclamações de defensores da sensatez), a marca de adoçantes resolveu reescrever o trecho: "...equivale ao poder adoçante..." -- ao meu ver, bem mais palatável. Pronto: um simples sinônimo apagou o incêndio e salvou o mundo.
Ninguém precisa falar difícil para escrever bem. Não é necessário nem ter bom-senso, pois o Acordo Ortográfico fez o favor de grafá-lo com hífen mas muita gente ainda escreve sem. Basta, portanto, ter coerência e sensatez. ;-)
Para resumir, meu segredinho-ao-pé-do-ouvido para escrever bem é um só: pensar em sinônimos. Dê um olé nas expressões duvidosas. Reescreva. Mude de assunto. Se não deu pela porta, tenta a janela; não deu pela janela, tenta a porta dos fundos, e por aí vai.
(Claro que leitura também ajuda, mas disso todo mundo já sabe.)
Abraços e até a próxima.